Músicas V – 5ª Sinfonia em Dó menor – Ludwig Van Beethoven
Logo que comecei a escrever este post notei a coincidência entre a escolha da música e a numeração da série: 5º post, 5ª Sinfonia de Beethoven. Esclareço que não se trata de algo proposital.
Pois bem, superada esta sincronicidade, sempre considerei curiosa essa nossa tendência que temos de intepretar composições como se todas fossem ou tivessem a obrigação de expressar os sentimentos do compositor.
Trata-se de uma herança do romantismo, onde realmente o compositor tinha plena intenção de demonstrar seus sentimentos e/ou passar ao ouvinte imagens mentais.
Ludwig Van Beethoven, por sua vez, localiza-se em um período de transição entre o classicismo (de Mozart, Haydn) e o romantismo (Chopin, Brahms, etc..), assim, muitas das tentativas de “traduzir” sua obra em forma de “mensagens ao ouvinte” devem ser vistas com bastante ceticismo.
Aliás, permitam-me abrir um parênteses: O fato de Beethoven ficar entre o classicismo e romantismo é o que mais me atrai em sua obra, afinal, suas composições não tem aquela beleza toda adornada e intocável do classicismo, que as vezes parece um frágil vasinho de porcelana, nem aquela torrente de emoções e afetações típicas do romantismo.
Sua 5ª Sinfonia, tema deste post, é constantemente interpretada como uma composição que decreve “o destino batendo a sua porta“, o que eu acho uma bobagem.
Esta sinfonia deve ser ouvida, assim como grande parte de sua obra, como um grande mosaico de notas cuidadosamente colocadas na partitura. Qualquer interpretação/imagem mental é algo que vem do ouvinte, e não do compositor. Beethoven nunca revelou sobre o que pensava quando a compôs.
Falando em “notas cuidadosamente colocadas na partitura“, bota cuidadosa nisso! Esta sinfonia foi composta entre 1804 e 1808, ou seja, 4 anos. O que torna até risível aqueles argumentos do tipo: “Nossa, fulano de tal é um gênio, fez uma música em meia hora“.
Um dos grandes baratos da música erudita é justamente esse esmero trabalho do compositor, como uma escultura cuidadosamente talhada ao longo do tempo.
Se realmente houvesse uma interpretação para sua 5ª Sinfonia, eu diria que ela retrata, em um sentido extremamente abstrato, a passagem das trevas a luz. Mas provavelmente estou errado nisso. É uma composição muito profunda, e, cada vez que a escuto, aprendo mais sobre ela.
Enfim, trata-se de uma composição para dias em que precisamos recuperar a fé no ser humano, afinal, que outra espécie teria a capacidade de criar algo assim?
Para a apreciação desta obra trago abaixo a execução completa sob a regência de Herbet Von Karajan, cujo vídeo é dividido em 4 partes (uma para cada movimento).
Ótimo texto! Nunca tinha pensado na sinfonia como passagem das treva para a luz. E não creio que haja erro em interpretar assim, ou do modo que for. Algumas interpretações podem ser embasadas, claro, mas outras são mesmo nossas impressões, sensações, “interpretações”, enfim.
Depois volto aqui para ler os outros textos.
Abraços
Gostei também. Começou insuportavelmente anti-romântico e terminou romântico. Espero que nao tenha sido um arroubo efêmero de uma mente barroca.