Músicas IX – Vide-Vida Marvada – Rolando Boldrin.
Iniciemos com um clichê: “Ah, eu nada tenho contra a verdadeira música caipira de raiz, o que é muito diferente desse sertanojo de corno que tanto incomoda os meus ouvidos“.
Ora, nem todo clichê é mentiroso, não é mesmo? Principalmente em tempos onde o tal “sertanejo universitário”, representado por “artistas” de qualidade duvidosa como Luan Santana, desfruta o auge da popularidade.
A verdade é que vivenciamos hoje o que se chama “a quarta era da música sertaneja”, que conseguiu diluir ainda mais a essência da música caipira. Muito mais do que a hecatombe sonora do que foi a “terceira era”, aquele tempo onde sucessos de Leandro & Leonardo; Zezé di Camargo & Luciano; etc, martelavam em todas as rádios desse Brasil, fazendo com que nossa memória auditiva fosse impregnada de tal maneira dessas melodias a ponto de atingir o inconsciente coletivo tupiniquim.
Para maiores detalhes acerca da história do cancioneiro rural do Brasil, favor consultar a Wikipedia, cujo artigo, embora resumido, dá uma breve idéia desse gênero que merece respeito de todo audiófilo que se preze.
Sendo assim, nesse cotidiano martelado por “meteoros da paixão” e outras bobagens comerciais, é um verdadeiro alívio ouvir a canção “Vide-Vida Marvada”, cujo compositor, Rolando Boldrin, sempre foi um curador do que é a música caipira do interior do país, sempre entoando, do alto de sua viola, suas modas, toadas, cateretês, chulas, emboladas e batuques.
Desconheço o contexto em que essa música foi composta. Toda a vez que a ouço, tenho uma certa impressão de ser um trabalho de “antropologia cultural”, na falta de um termo melhor. Parecido com que os artistas do modernismo faziam: identificar a cultura nacional e dilui-la em uma arte mais refinada.
Mas em nada tira a graça do que considero uma das melhores músicas sertanejas já compostas. Vale dizer que estou, sem nenhum exagero, a três meses com essa melodia na cabeça, sempre cantarolando-a por aí. Talvez esse post seja até mesmo um exorcismo necessário, de tanto que a fico recordando no dia-a-dia.
Segue abaixo um clipe do youtube para v. apreciação:
Quando assisti ao filme “Ray”, sobre Ray Charles, uma das coisas que mais marcou foi a apologia que ele fazia da música country: “o belo são as histórias; eu gosto das histórias”. E daí me lembro da saudade imensa do campo e do mato, onde Maria Chiquinha pôs chifres em Genaro, seu bem. Tomara que seja verdade que exista mesmo disco voador e que seja um povo inteligente pra trazer pra gente a paz e o amor, ou ainda vai ter muito Chico Mineiro morrendo por aí.