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3 quilômetros e 40 minutos depois…

Curitiba, 03 de março do 2010º ano do nascimento de nosso senhor Jesus Cristo.

Estou dirigindo pela Linha Verde rumo a minha casa, após uma exaustiva jornada de trabalho.

A chamada Linha Verde é um apelido dado a uma obra efetuada na BR 116 que, segundo a propaganda oficial da prefeitura, tensionava “transformar a BR em avenida“, inclusive inserindo um novo corredor exclusivo para o transporte coletivo urbano (o que nós, criaturas curitibanas, chamamos de canaletas).

Pois bem, é fato notório (ou melhor era) que a BR 116, no trecho que corta a “grande” Curitiba, sempre padeceu de congestionamentos imensos, exigindo dos motoristas que ali trafegavam uma paciência semelhante a um monge tibetano sob o efeito de analgésicos ilícitos.

Assim, lá pelo início de 2007, quando as obras começaram a ser efetuadas no trecho correspondente, eu tinha a sincera e ingênua esperança que esta rodovia se transformaria em um lugar agradável para trafegar.

Desnecessário dizer que na época em que as obras iniciaram, esta rodovia se transformou em um pesadelo no que tange a boa fluidez do trânsito, em especial o cruzamento da Salgado Filho (local de maior concentração de  veículos pertencentes a infantes estudantes universitários da PUC/PR, cujas habilidades no volante… nem vou comentar).

Lembro que o cenário era devastador: Montanhas de entulhos, buracos asteroídicos (inventei essa palavra), maquinário caoticamente estacionado, desvios e congestionamentos…  muitos congestionamentos.

Some tudo isso ao fato que as obras foram exclusivamente efetuadas em horário comercial (o que causou mais atrasos ainda), medida tomada para evitar a contratação trabalhadores noturnos.

Após dois anos de muita espera, de muito stress diário durante o trajeto de 20 km que preciso percorrer para chegar ao meu local de trabalho (sem contar os 20 km da volta), a obra foi entregue.

Tenho que admitir, o trânsito, quando tudo transcorre na mais perfeita normalidade, até que apresentou uma modesta melhora em seu congestionamento.

O problema é que esperar a “mais perfeita normalidade” do trânsito curitibano  é o mais puro exercício de suspensão voluntária de descrença.

Sabem o que é suspensão voluntária de descrença? É aquele princípio cinematográfico  no qual o público pode aceitar um certo nível de improbabilidade em benefício da história. Tal princípio é frequentemente aplicado em filmes de Ficção Científica.

Isto posto, acreditar que um trajeto de 20 Km no trânsito curitibano transcorrerá de maneira normal é o mesmo que crer na verossimilhança de explosões de naves espaciais no espaço sideral (para os mais burrinhos: não há oxigênio no espaço para provocar combustão). Isso enquanto uma X-Wing, provocando um barulho estrondoso  (Para os mais Burrinhos II – o som não se propaga no vácuo), executa acrobacias mirabolantes antes de lascar um míssil no tubo de ventilação da Estrela da Morte.

Assim, qualquer caminhão quebrado em virtude de problemas mecânicos, qualquer “raspãozinho” entre dois veículos, qualquer problema na sincronia dos semáforos (sabe quando o sinal fica vermelho por 5 minutos e verde por 5 segundos?), é o suficiente para se instaurar “mastodônticas” filas.

E este foi mais um desses dias.

Após sair de uma rua terciária (secundária seria elogio) cujo asfalto parece emular um passeio lunar, desemboco na BR 116, antes de começar a chamada Linha Verde propriamente dita.

Ao deslocar 50 metros, percebo que o trânsito vai gradativamente diminuindo a velocidade, até alcançar o perfeito estado de repouso.

20 minutos se passaram, e, ao chegar em um ponto onde se podia visualizar uma maior extensão da fila, fiquei esperançoso de, ao menos, descobrir a causa de toda essa lentidão, o que não foi possível, pois o congestionamento ultrapassava a linha do horizonte e, infelizmente, não sou agraciado pelo olho de tandera para desfrutar uma visão além do alcance.

Neste momento já estava acreditando que, caso eu tivesse comprado uma mula ao invés de um automóvel, eu já estaria em casa, isso ainda com a vantagem de economizar na compra de combustíveis fósseis para abastecer meu veículo.

Enfim, cheguei em um ponto do torturante trajeto de 3 km e 40 minutos de extensão em que os veículos que ora trafegavam pela faixa da esquerda, tentavam insistentemente deslocar-se para a porção direita da pista.

Era um espetáculo magnifíco, parecia uma coreografia de balé, cujos dançarinos (os veículos) descortinavam, pouco a pouco, a causa primordial de todo esse caos:

Notem que a causa do congestionamento será em breve revelada.

Como diria o Narrador da Sessão da Tarde: Tem cheiro de confusão e loucas aventuras no ar

óóóóóó... Um GANG BANG automobolístico.

Embora não pareça claro nas fotos acima, até porque eu não sou nenhuma aberração genética de três braços para que eu conseguisse dirigir e tirar fotos ao mesmo tempo, tratou-se de um engavetamento de 4 (quatro) veículos.

Vejam bem, este não é um blog jurídico, pois, se assim fosse, eu já teria gastado umas 400 linhas (quando na verdade umas 20 seriam suficientes para resolver a questão) para discorrer sobre a responsabilidade civil automobilística, seja lecionando sobre a presunção de culpa de quem abalroa a traseira de outro veículo, seja tecendo comentários sobre a teoria do corpo inerte (o que, segundo o STJ, é causa excludente de responsabilidade).

Mas não, só quero expressar minha intensa frustração de perder 40 (quarenta) minutos da minha vida no em um trecho diminuto da BR.

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Categorias:Inutilidades
  1. 4 de março de 2010 às 01:15

    Hoaheouae, nossa, engarrafamento é horrível. Aqui em Recife também andou rolando essas obras que só fazem o trânsito ficar mais cagado.
    Mas, pelo menos, seu trabalho é pertinho. Vai de bike, heheheh!

    ps. Sobre a temática, que coiencidencia mesmo! Hehehe! A minha foi motivada por um projeto de blogs, o blorkutando. =)

  2. 4 de março de 2010 às 02:59

    Esta Cidade, às vezes, me acolhe…noutras me engole num só gole.
    Espero minha nave zen.
    Caminho solitária, sem nada na cabeça, com tudo deixado nas gavetas.
    Só respiro…inspiro…ando…
    Minha cidade sorve meu fôlego,
    me traz ventos fracos e fortes.
    Ela é meu instrumento de sopro, de minguantes,
    de cheias línguas.
    Meu instinto está morno no contorno
    amplo da quietude, apenas porque estes
    tão repetidos fins…pensando bem…
    enumeram o Sim e o Não.
    Por isto, em algumas ocasiões, atraso
    meu relógio propositalmente
    e dou banho gelado na
    minha pressa.
    O caminho é um detalhe quando
    nela chove o pranto ou o riso
    de alguém.
    É a Cidade que desconversa, de olhos
    fechados, à frente de pés molhados.

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